terça-feira, 27 de agosto de 2019

O tempo...

















O passado deixou a porta aberta.
Sem avisar, sem nenhum alerta,
pela fresta passaste e te vi.

O tempo é como uma vidraça.
É como uma janela que embaça
a visão de quem olha para trás...

Não fechei bem a porta do passado.
O tempo risonho e muito assanhado
te fez passar pela porta entreaberta...

O passado é como fina réstia de tênue luz
que no quarto escuro a claridade conduz.
Do escuro do tempo surgiste...

O tempo de tudo lembra, nada esquece.
É uma brasa que vira fogo e nos aquece.
E tu estavas ali e tudo aqueceu.

O tempo é lento, mas não para nem morre.
Ele é como suave água que lenta escorre...
As águas do tempo te trouxeram para hoje.

Ao te ver assim tão jovem e tão bela
fechei do tempo a porta e a janela.
Para não te ver me fechei todo.

De nada adiantou...

O passado é como fina réstia de tênue luz
Que no quarto escuro a claridade conduz.
Do escuro surgiste para não mais ir embora.

sábado, 20 de abril de 2019

Eu não desisti, fui desistido.


Não que eu desista.

Fui perdido de vista.

Eu fui desistido.

Fiquei desassistido.

Não fui televisado.

Desassistido. Abandonado.

Não que eu desista.

Fui perdido de vista.

Em pleno voo, abatido.

N’alma a força do apaixonado.

Entretanto, abandonado!

Um ser interrompido.

Não desisti, fui desistido.

Nunca um suicida, mas apaixonado.

Não matei a mim mesmo, fui suicidado.

Desistência, não. Desassistido.

Fui matado, interrompido.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Difícil, muito difícil...




Não é fácil navegar
quando o velejar
é proibido...

Jogar-se forte para o alto
é difícil quando o asfalto
é o permitido...

Escrever longo rimado poema
quando o mundo se condena
a ser iletrado... difícil!

Impossível ver a moça bela
se cega é toda ampla janela
tão lacrada e gradeada...

Difícil sair para a manhã tão orvalhada
se toda alma é na solidão trancafiada
a ponto de voltar a dormir...

Como querer ser anjo de luz
se o egoísmo nos conduz
a ponto de endiabramo-nos...

É muito difícil querer o doce amplexo
Se o incansável desejo por puro sexo
Nos deixa com poucas escolhas...

Difícil, muito difícil...

Não é fácil navegar
Quando o velejar
é proibido...





sábado, 12 de janeiro de 2019

Virtualidade...



Afago carinhos nas curvas do teclado...
Dedilho suspiros nas teclas sensíveis.
Digito tristezas e sutilezas digitais...
Vago entre conexões nos espaços cibernéticos
procurando o que perdi  off-line!
Viajo teclando galáxias virtuais
à procura do que perdi na terra...
Meu amor analógico acreditei ser pesado demais
num tempo digital feito de efemeridades....
Plugado e vestido de softwares trafego
em oceanos infinitos e digitalizados...
Perdido eu teclo procuras!
Perdido conecto ausências!
Sem ti na terra procurei virtualidades...
Virtualidades tantas e infinitas
que continuo assim, teclando saudades
nos espaços enregelados
dos conectados na solidão!