sábado, 28 de novembro de 2020

Ela! Ela! Ela! Ela!

          A voz dela

A face bela

O olhar de messalina

O gingar de bailarina

Sou cativo dela

Ah! Prisão bela

Seio quase encoberto

O sorriso tão aberto

Perfume de brisas

As pernas lisas

Carcereira muito bela

Correntes os cabelos dela

Ela tão luzidia e nua

Pele de nuvem e lua

Corpo ondulante

Alma dançante

Cílios de pincel e aquarela

Ela, sempre ela... a bela

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

À C...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Despe-se silenciosa,

Lentamente – como bailarina!

A blusa desliza, dengosa...

Surge o seio – que fascina!

 

Ginga – a saia cai!

A cintura cintila...

O sorriso pela boca vai...

Luz – pelo corpo brilha!

 

A coxa sai da meia,

A pele pede olhares!

Tem o encanto da lua cheia,

O enigma das luzes estrelares!

 

O sapato você descalça;

Seu pé é raro diamante!

A mágica nudez realça

Seus dotes de amante!

 

Nua – de encantos veste-se!

Nua – cheira a ópio!

Vestida só de luzes: de pudor despe-se!

Eu? Morro e gemo nesse encantador ócio!

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Pasárgada... à direita...




















Vou-me embora,
Para Pasárgada além...
Lá não há hora;
nem tristeza também...
Nesse lugar
Só há vagar...
Vou para longe,
Lá, onde nem o eco responde.
Para esse lugar de sonho
o verso que componho
é o terrível caminho.
O sofrer é o vinho
Que fez-me querer morrer...
Pasárgada à direita,
Não há como errar:
Lá há flores para a colheita,
Há prostitutas para degustar...
Morrendo me vou embora:
Quero gozo e mulheres,
Quero a puta que chora
E diz-me: “ama-me se puderes!”
E com certeza a amarei!
Até mais! Embora irei,
Lá para lugar nenhum...
Nunca mais de prazeres jejum,
Quero-os todos e mais!
Amigos! Voltar? Jamais!
O lugar é de Pasárgada além...
A fuga é o trilho... o prazer o trem!



Escriba



 Escriba – Wikipédia, a enciclopédia livre

 
Estranho escriba,
Copiador da vida
sinto eu que sou!
Copista que copiou
Instante incopiável!
Copiador inviável
De amores vitais!
É como de catedrais
Escrever os sons plangentes!
É como escrever as pungentes
Cores dos sutis arrebóis!
Escrever os milenares sóis
Dos infindos universos!
Com meus inverossímeis versos
Escrevo coisas da vida!
Enlouquecido escriba
A pintar com letras!
Do pintor as mágicas paletas
São as teclas do computador!
Sou Demiurgo louco copiador,
Triste e bobo escriba
Que esqueceu de viver a vida!

terça-feira, 12 de maio de 2020

Casulo metálico




 1501 X 842 3 0 - Carros Antigos Desenho Png , Transparent Cartoon ...
Cruzo o ar frio da manhã. São seis horas. Ainda é escuro. Minha caixinha tecnológica me protege de tudo. Meu carro é confortável. Celeremente ando pelas ruas entre outros veículos. Pessoas passam pelas calçadas. Semáforos me fazem parar. Faixas de pedestres gritam minha parada também. Faróis, luzes, sons, placas, uma quantidade enorme de coisas gritando envolta do carro. Porém estou surdo. Sigo meu caminho indiferente. Encouraçado pelo aço e potência do motor, blindado pela velocidade, nada sinto. Estou ensimesmado no meu casulo metálico, é quase um útero. Não quero conversa com o mundo.
Minha solidão e a minha dor estão presas dentro do carro. Assombram só a mim e não quero compartilhar. Sei que estou só. Aquelas pessoas, aqueles veículos, aqueles sinais não dizem nada para mim. Não dizem porque não os quero ouvir. Sinto-me isolado do frio da manhã e isolado do planeta. Meu carro me conduz. Meu carro me protege. Sou um Hoplita, meu carro é meu escudo. Quero apenas ir, avançar. Meu veículo é minha única defesa neste momento de profundo desamparo.  
Quantas vidas estão cruzando por mim ali fora? Quantas coisas estão acontecendo? Tanta gente indo ao trabalho, tanta gente sofrendo, tanta gente sendo... gente.  Nesta manhã, porém, nada tenho a dizer. Nada tenho a fazer. Tudo é-me indiferente porque minha fragilidade me faz agora uma figura de vidro, de cristal. Preciso do meu casulo metálico para sobreviver, como as conchas ou estojos de joias. Estou frágil e só. Mais frágil me sentirei quando chegar ao meu destino. O frio da manhã e o inverno vão me atingir. A rotina vai colidir comigo. Conviverei com pessoas que não me amam. Falarei com pessoas que talvez não queiram falar comigo. Talvez alguma discussão no trabalho. Quem sabe alguém virá me pedir algum conselho. Como suportar hoje, hoje que estou tão fragilizado?
O mundo, as pessoas não vão parar porque estou assim. Ninguém quererá saber por que estou assim. Sei que não seria justo eu querer que alguém se preocupasse com o que sinto. A dor é minha. Não posso dividi-la. Não seria justo. Meu carro é, por alguns minutos, a barriga da minha mãe, o conforto que ninguém pode dar para mim nesse momento. Vou rodar mais um pouco, chegar atrasado ao trabalho, curtir mais essa dor até cansar de senti-la. Quem sabe eu melhoro antes de ter que parar.