domingo, 24 de setembro de 2017

A lição da bruxinha.




Quando Marquinhos acordou estava se sentindo diferente. Não dava para dizer exatamente o que estava acontecendo. Estava um pouco mais pesado. A fome parecia ser mais fome que o normal. A sede também.  A vontade de brincar estava multiplicada por dez. A desvontade de estudar estava a mil! O desejo de comer doces e tudo que era gostoso maltratavam sua barriga! Queria muito, muitíssimo brincar o tempo todo! Queria saltar da cama logo, não escovar os dentes ou pentear-se. Desejava apenas correr, dar cambalhotas. Mas o pior não era essas vontades. O pior mesmo é que, naquela manhã, não conseguia se controlar! Uma força muito estranha, de lá de dentro do seu corpo, o fez desobedecer a mãe e correr logo para a rua brincar. Lembrou que tinha prova na segunda feira, mas não conseguia impedir a si mesmo de saltar, dar cambalhotas, gritar, rir com os amigos pela vizinhança!

Sabia o Marquinhos, que alguma coisa não ia bem nele. Afinal, sempre foi malcriado e mimado, mas nunca ficou sem cumprir regras por tanto tempo. Na verdade não estava cumprindo nenhuma regra! Não conseguia se conter!  Estava feliz, irresponsavelmente feliz, mas percebia que não ia dar certo tal procedimento.  Porém, como se conter? Estava fazendo tudo o que queria e que era prazeroso, imediatamente prazeroso.

No fim da manhã já não conseguia pensar direito. Não conseguia pensar além de minutos a frente. Difícil explicar... não conseguia mais perceber com clareza o futuro, o que ia acontecer às duas da tarde, por exemplo.  Estava preso no desejo presente! Não dava para pensar na prova de amanhã. Só existia o prazer de brincar agora.  Isso era muito estranho até para ele que não gostava de estudar nem de tomar banho! Estava até sentindo medo da força estranha que vinha de dentro dele. Sentia-se um pouco bicho. Queria só fazer coisas gostosas que não precisava pensar. Estaria emburrecendo? Seria alguma doença?

No final do dia estava de barriga cheia. Doía. O corpo estava todo arranhado e roxo das travessuras. Brigou com vários amigos, a tapa! Havia perdido a paciência com todo mundo. O dia inteiro fez só o que queria e pronto. Fechou a porta do quarto muito nervoso e cansado. Não estudou, não tomou banho, não cumprimentou ninguém e estava esquecendo o que significava o dia seguinte. Só pensava no hoje. Só queria dormir agora. Ainda bem que era sábado.

Acordou de madrugada. Muito cedo. Novamente uma energia absurda o fazia agitar-se, querer pular e correr. Era saúde em demasia. Estava muito confuso e já queria comer algo. Também queria passear, tomar água, lamber um sorvete, andar de bicicleta, brincar de pega-pega com os amigos... Mas era apenas cinco horas da manhã. Não deu importância para a hora e desceu até a cozinha para abrir a geladeira. Então ouviu um risinho abafado.

Assustado olhou. Havia uma bruxinha muito bonitinha sorridente no escurinho da cozinha. Após o susto ele perguntou o que estava acontecendo.
- Não percebeste nada, Marquinhos?
- Sim! Estou diferente, pareço mais forte e só faço o que quero, o que eu gosto.
- Estás gostando? _ Ela ria ainda mais.
- Sim... Não... Não sei. Tem algo estranho!
- Eu tirei a tua alma e deixei só o corpo...
- Como isso? Mentira!
- É verdade. Tu querias fazer só o que gostavas. Então tirei de ti o que tu tinhas de humano... a reflexão, o pensar sobre o que fazer, pensar sobre o futuro... enfim, és apenas corpo agora. Como um cachorrinho.

Antes que Marquinhos se refizesse do susto, a bruxinha sumiu. E agora? O que ele iria fazer? Quais seriam as consequências de não ter alma? De ficar só com o corpo, que é animal como qualquer outro?

A responsabilidade diminuía Cada vez ficava mais forte a vontade de fazer só o que o corpo quer, ou seja, só o que é gostoso e sem planejamento. Não conseguia mais pensar com clareza. Então comeu tudo que tinha de gostoso na geladeira e foi para a rua. Ficou brincando sozinho até que os amigos aparecessem para ficarem juntos. Aí não deu mais certo. Como só fazia o que o corpo mandava, ou melhor, como só fazia o que os animaizinhos faziam, logo brigou feio com todos os amiguinhos. Afinal, cada vez pensava menos no que poderia acontecer no minuto seguinte, e cada vez ficava mais bravo. Não estava ficando burro. Estava cada vez mais irresponsável!

Só voltou para casa quando a fome bateu na barriga. A mãe xingou, o pai também. Mas logo esqueceu a bronca recebida e já queria brincar novamente. Não podia perceber que a bruxinha ria o tempo todo ao ver o guri todo sujo, mal cheiroso e cheio de doces na boca.

Quando a noite chegou Marquinhos estava exausto. Só queria dormir. Quase não pensava mais. Já não conseguia falar sobre o futuro e o passado já havia esquecido. Por alguns minutos esquecia quem era, pois o desejo de comer, brincar e dormir era mais forte do que pensar em si mesmo. Os desejos não davam sossego e ele ia de uma vontade a outra, ia satisfazendo a todo minuto o que podia satisfazer. O que não podia conseguir, esquecia segundos depois.

A bruxinha ficou com pena porque se ele ficasse mais tempo assim, ficaria um bichinho para sempre. Para sempre ficaria escravo dos desejos e ia esquecer de si mesmo.  Também já estava perdendo a graça ver o guri assim, tão feio, tão perdido e tão... animalzinho. Então pegou um vidrinho do seu bolso e lá estava a alma, a responsabilidade do Marquinhos. A alma era transparente e supercuidadosa. A alma suplicou com o olhar para que a bruxinha a deixasse voltar ao corpo. Ela estava com medo que fosse rejeitada pelo corpo do Marquinhos. O corpo estava forte e cada vez mais mandava na mente do guri.

              A Bruxinha abriu o vidrinho, a alma pulou e como um raio, plof, atingiu a cabeça do Marquinhos. O guri tremeu todo e voltou a si. A bruxinha riu alto e foi embora. Com a humanidade restabelecida, a ficha caiu! Marquinhos entendeu a lição que ficou daquela traquinagem da bruxinha!

E tu? Entendeste?

sábado, 23 de setembro de 2017

Últimas páginas (Do livro "Últimas páginas"




Ele tinha como hábito escrever pequenos poemas nas últimas páginas dos cadernos escolares Era uma mania antiga. Na quinta série quando se apaixonara pela guria da sexta, era como se o caderno começasse no final, da última para a primeira página. Escrevia como um condenado poeminhas, versinhos inocentes que manchavam páginas e páginas dos cadernos escolares.  A colega da sala ao lado nunca soube da existência de tais delírios escritos de trás para frente. A guria alta, de óculos grossos e magra, muito magra, talvez nem soubesse que o baixinho, loirinho, igualmente de óculos grossos e tímido tinha tamanha paixão por ela.
Quando adolescente, as páginas finais continuaram sendo uma espécie de diário romântico/sonhador do moço. Continuava baixinho e loiro. Mas os óculos já eram delicados e escolhidos com cuidado.  Quando pegava os cadernos e livros os pais dele exultavam: que guri estudioso! Não sabiam que os livros eram de poesia, os cadernos estavam sendo escritos de trás para frente... eram poemas! A mochila era o cofre em que escondia tais tesouros literários que ninguém lia. Ninguém sabia. Ninguém percebia o poeta feinho, sem graça, sem jeito, sem namorada, sem nada.
Anos mais tarde apaixonou-se pela sua professora. As paginais finais eram então utilizadas com loucura e paixão! Na aula as páginas primeiras eram conteúdo puro. Mas as páginas finais! Eram uma loucura só. Rabiscos e poemas faziam delas um mundo extraordinário que, com certeza, só faziam sentido para seu autor.  Também havia, junto com as poesias ingênuas, listas de palavras bonitas, sonoras, que o escritor juvenil acolhia nas últimas páginas para usá-las nos seus momentos de criação. A professora, a musa das páginas malditas, só tinha acesso ao início do caderno. Então não podia penetrar na alma do poeta, percebia o conhecimento do aluno... e só. E como o conhecimento de química era pouco naquela cabecinha louca de páginas finais, a nota era uma porcaria só. É fato: paginais iniciais nada falam das finais!
Alguma coisa ruim aconteceu com o juvenil poeta.  Um dia qualquer de uma época qualquer as páginas iniciais tornam-se as principais e as finais passam a rarear. As notas sobem e os escritos diminuem. Os corredores da escola começam a murmurar quão bom aluno tornara-se ele! Mas, escutem somente os que sabem escutar: não sabiam das páginas finais! Elas estavam definhando, anêmicas de algo! O problema é que o mundo quer ler apenas os cadernos que possuam bonitas páginas iniciais.
Os últimos escritos dele, pois parou de escrever – de trás para frente no caderno – foram estes:

Obnubilar-se...

Chamei-te aqui,
Aqui não vieste...
Gritei em prece,
Surda estavas...
Chamei tuas asas,
Quis tuas garras...
E tu, que não me amparas
Deixaste-me a padecer!
Ouvi-me! Não quero viver...
Eu sofro, amada morte,
Eu quero a paz da tua sorte!
Se nada existe além de ti,
Serei feliz porque sofro aqui...
Mas se algo existe no teu mundo,
Será melhor que esse sofrer profundo...
Morte tão santa, divina!,
Luz! Minh’alma definha...
É morta-viva, vive morta!
Morte, abre tua porta,
Ceifa esse galho morto...
Vem, navega-me para teu negro porto!

Era um poeta morrendo de dor. O diário do caderno dizia que o autor dos versos nunca lidos estava moribundo. Pois é, quantos poetas morrem antes de serem desvendados, antes de desabrocharem? Impossível quantificar tais assassinatos de almas escreventes de páginas finais. Crimes insolúveis!
Os cadernos dele começaram a serem usados de forma correta. O estudante passou a ter ótimas notas. Livros de poesia? Só os que eram necessários para o vestibular. Sonhos? Só aqueles que estivem ligados a uma profissão. E veio o vestibular. Passou de primeira! E veio a formatura! Tirou de letra. Surgiu o primeiro emprego. Sucesso!
E veio a felicidade? Não! Ele era apenas um guri que adulteceu muito rápido. Era um baixinho muito esquisito e simpático. Esquisito porque pensava diferente de todos. Simpático porque estava sempre sorrindo. Mas quem sabia ler aqueles olhos?Ninguém talvez. Lá dentro a tristeza estava.  Lá dentro estava a angústia de quem havia reprovado nas questões relativas as páginas finais dos cadernos escolares. Alguma coisa falta nos conteúdos das páginas últimas dos últimos cadernos.
Um dia aconteceu. Aconteceu o inesperado. Ele, agora professor conhecido, palestrante muito convidado, caiu. Caiu mesmo: Plof! Estabacou-se nas escadas da Universidade. Lindo de ver! Livros espalhados, folhas voando, um bando de alunos correndo para ajudá-lo. Então o fenômeno Priscila aconteceu.
Ele caído ao solo. Ela, assustada, coloca a cabeça dele em seu colo. Outros gritam para chamarem a ambulância. O caso era grave. A cabeça dele estava sangrando. Bateu na escada que ele descia correndo.
Priscila olhava no olho do professor caído. O olho azul dele estava menos azul, mas estava fixado nos olhos dela.  A mão dele estava fria, mas segurava firme.  Questão de minutos e a ambulância chegou. Corre-corre. Alunos se afastam. Vem a maca. Eis que desaparece o incidente. Tudo passa a ser normal. O silêncio retoma os corredores.
Priscila esqueceu do ocorrido. Quero dizer, até lembrava, mas já não era relevante para ela a queda de um professor.
Após a queda ele acordou-se no pronto socorro do hospital. Tudo estava bem. Um corte, um hematoma gigante e uma dor de cabeça. Só. Algumas horas de observação médica e pôde ir embora. Mas ele sentia-se diferente. Não podia esquecer o verde olhar da Priscila. Luzes verdes brilhavam naquele olhar. Neles havia profundidades que chamavam para seu interior. Ele não pôde escapar ao chamado e entrega-se. Sabia que foram poucos minutos de contato... mas o que é o tempo? Quem pode medi-lo se ele é um paradoxo? Se ele é diferente para as diferentes pessoas? Ele foi abduzido por aqueles olhos.
Dias depois aula normal. Ele entra. Sorri para Priscila e mostra a última página de um caderno. Ela estranha: por que a última página? Ela lê:

Olho verde...

Vejo tudo verde: o sol,
As constelações...
Tudo! Verde é o arrebol,
Tudo tem verdes fulgurações!

Verde! Verde é a vida,
Verde é o mundo!
Verde é a flor rompida,
Tudo é de um verde profundo...

Eu louco? Louco ao ver-te,
Ver-te assim tão bela,
Ver-te assim de olho verde,
Tudo é verde para combinar com ela!

Ela não entendeu o que significava aquilo. Ele sorriu e disse que ela havia salvado a vida dele. Priscila imaginou que o havia salvado da morte. Mas nós – os leitores desse texto - sabemos que ela salvou a última página do caderno, ou seja, salvou um poeta que estava morrendo aos poucos.







A vez primeira...
















Qual inúmeros vaga-lumes
ou como espalhados perfumes
teus encantos por aí vão...

Qual do relâmpago o clarão
em mágica noite rara:
Ah! Em nada se compara

Teus juvenis encantos!
Teus luzentes cabelos
tão cheios de desvelos

fazem sutis acalantos
na tua face clara...
Que verso se equipara

A essa mulher-poema?
A beleza dela condena
as moças todas a feiúra!

Com demasiada usura
para mim a desejo!
Ela é tremendo lampejo!

Ao vê-la na vez primeira,
inocente poetinha,
tanta luz ela tinha
que provocou-me cegueira!


domingo, 17 de setembro de 2017

À LD




PROCURAVA DEFINIR-TE... MAS NÃO HÁ PALAVRA IDEAL...
TÃO IMPERFEITAS! TAREFA DIFÍCIL - ÉS MINHA VESTAL!
COMPARAR-TE AO CÉU? À LUZ? À  ROSA?
NÃO! ÉS MUITO MAIS , MUITO MAIS PRECIOSA!
DEFINIR-TE É DEFINIR O INDEFINÍVEL,
É CONHECER DEUS, É SABER O INCOGNOSCÍVEL!
SOU HUMANO – POUCAS PALAVRAS TENHO...
SOU HUMANO – FRACO PARA TAL EMPENHO...
ENTÃO DEUS RI DE TÃO PRETENCIOSO MORTAL:
IDIOTA! TENTAS DEFINIR MINHA CRIAÇÃO IMORTAL?”
“ELA É TUDO NESSE PLANETA!”
“TU ÉS LODO. ELA? COMETA!”

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Regências e saudades...

(Para a colega linda das aulas de português...)
























Aspirava ao encontro com ela...
Aspirava o perfume dela
como se fosse o mesmo...

Assisti enfeitiçado aos feitiços dela
e ela o meu sofrer não assistiu...
Foi embora para sempre, partiu!

Visei triste meu poema
para ver se a encantava...
Mas ela a outras coisas visava...

Amá-la implica querê-la sempre por perto!
Como amá-la senão em rimas?
Mas ela, insana, implica com meu verso...

Hoje eu namoro a poesia tão bela
apesar de não estar sozinho...
namoro com muitas saudades dela!





domingo, 10 de setembro de 2017

Amélie Poulain

























Aprendi que não é o muito grande
nem o ávido pulmão que se expande
que pode dar o que quero...
Descobri que não é o universo
nem o longe grande e disperso
que pode dar o que quero...
Percebi que não é o olhar que tudo vê
nem a grande questão sobre o porquê
que pode dar o que quero.
Vi que não é a força do metralhar
nem o horror do canhão a troar
que pode dar o que quero...
É no detalhe, é no pequeno,
é no mínimo que está o veneno
que pode dar o que tanto quero...
É o sutil néctar, é a sutiliza da pele,
é o pequeno átimo que me impele...
Amélie Poulain não via o muito grande;
é o detalhe que no olhar dela se expande!
Assim como ela, o que quero é detalhe,
é um pouquinho que muito, muito vale...
Não desejo o muito de quem é avaro,
quero o pouco de quem ama o muito raro!!!

sábado, 9 de setembro de 2017

A Profe e a gente...





A profe  ama a gente!
Busca água quente
Pra fazer chazinho!
A profe tem carinho
Guardado no olhar!
O olho tem luz solar
Que aquece a gente!
Ela tem abraço quente
Pra gente sentir carinho!
A gente faz muito denguinho
Pra ganhar um sorriso dela!
A profe é tão fofa e bela
Que tem carinho no olhar!
De noite eu quero sonhar
Com a Profe carinhosa!
Ela é flor muito mimosa
Que perfuma o ano inteiro:
Se ela é flor? A gente é canteiro!

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Vento norte...






















No dia de vento norte
Sou como um barco à velas:
Leva-me o vento forte...

O vento na rua corre.
É como sangue nas veias,
Por tudo forte escorre....

Vento rio, vento correnteza!
Leva tudo, levanta tudo...
Sou uma pandorga, com certeza!

Vento norte todo ano!
Faz ondas, faz naufrágios...
Sou veleiro veloz no oceano!

Se sou veleiro, se sou embarcação forte,
Se eu navego de velas sempre abertas
É porque tu és meu vento norte!


sábado, 2 de setembro de 2017

Mais amar...




















Ama-la mais eu quisera.
Mais, quem me dera,
mais amá-la eu pudesse.
Então Deus de mim se compadece!
Para amar mais não tem espaço
no meu peito que ama tanto.
Antigos amores pus a um canto
para mais espaço no peito sobrar...
Quisera eu mais e mais te amar...
Bela moça que ser muito amada merece.
E peço a Deus em humilde prece
para fazer minha alma mais crescer:
bem mais espaço para preencher,
para mais e mais  eu a moçar amar!
Ah! Quem me dera, quem me dera!
Mais amá-la; mais ama-la eu quisera!