Quando Marquinhos
acordou estava se sentindo diferente. Não dava para dizer exatamente o que
estava acontecendo. Estava um pouco mais pesado. A fome parecia ser mais fome
que o normal. A sede também. A vontade
de brincar estava multiplicada por dez. A desvontade
de estudar estava a mil! O desejo de comer doces e tudo que era gostoso
maltratavam sua barriga! Queria muito, muitíssimo brincar o tempo todo! Queria
saltar da cama logo, não escovar os dentes ou pentear-se. Desejava apenas
correr, dar cambalhotas. Mas o pior não era essas vontades. O pior mesmo é que,
naquela manhã, não conseguia se controlar! Uma força muito estranha, de lá de
dentro do seu corpo, o fez desobedecer a mãe e correr logo para a rua brincar.
Lembrou que tinha prova na segunda feira, mas não conseguia impedir a si mesmo
de saltar, dar cambalhotas, gritar, rir com os amigos pela vizinhança!
Sabia o Marquinhos,
que alguma coisa não ia bem nele. Afinal, sempre foi malcriado e mimado, mas
nunca ficou sem cumprir regras por tanto tempo. Na verdade não estava cumprindo
nenhuma regra! Não conseguia se conter!
Estava feliz, irresponsavelmente feliz, mas percebia que não ia dar
certo tal procedimento. Porém, como se
conter? Estava fazendo tudo o que queria e que era prazeroso, imediatamente
prazeroso.
No fim da manhã já não
conseguia pensar direito. Não conseguia pensar além de minutos a frente. Difícil
explicar... não conseguia mais perceber com clareza o futuro, o que ia
acontecer às duas da tarde, por exemplo.
Estava preso no desejo presente! Não dava para pensar na prova de
amanhã. Só existia o prazer de brincar agora. Isso era muito estranho até para ele que não
gostava de estudar nem de tomar banho! Estava até sentindo medo da força
estranha que vinha de dentro dele. Sentia-se um pouco bicho. Queria só fazer
coisas gostosas que não precisava pensar. Estaria emburrecendo? Seria alguma
doença?
No final do dia estava
de barriga cheia. Doía. O corpo estava todo arranhado e roxo das travessuras.
Brigou com vários amigos, a tapa! Havia perdido a paciência com todo mundo. O
dia inteiro fez só o que queria e pronto. Fechou a porta do quarto muito
nervoso e cansado. Não estudou, não tomou banho, não cumprimentou ninguém e
estava esquecendo o que significava o dia seguinte. Só pensava no hoje. Só
queria dormir agora. Ainda bem que era sábado.
Acordou de madrugada.
Muito cedo. Novamente uma energia absurda o fazia agitar-se, querer pular e
correr. Era saúde em demasia. Estava muito confuso e já queria comer algo.
Também queria passear, tomar água, lamber um sorvete, andar de bicicleta,
brincar de pega-pega com os amigos... Mas era apenas cinco horas da manhã. Não
deu importância para a hora e desceu até a cozinha para abrir a geladeira.
Então ouviu um risinho abafado.
Assustado olhou. Havia
uma bruxinha muito bonitinha sorridente no escurinho da cozinha. Após o susto
ele perguntou o que estava acontecendo.
- Não percebeste nada,
Marquinhos?
- Sim! Estou
diferente, pareço mais forte e só faço o que quero, o que eu gosto.
- Estás gostando? _
Ela ria ainda mais.
- Sim... Não... Não
sei. Tem algo estranho!
- Eu tirei a tua alma
e deixei só o corpo...
- Como isso? Mentira!
- É verdade. Tu
querias fazer só o que gostavas. Então tirei de ti o que tu tinhas de humano...
a reflexão, o pensar sobre o que fazer, pensar sobre o futuro... enfim, és
apenas corpo agora. Como um cachorrinho.
Antes que Marquinhos
se refizesse do susto, a bruxinha sumiu. E agora? O que ele iria fazer? Quais
seriam as consequências de não ter alma? De ficar só com o corpo, que é animal
como qualquer outro?
A responsabilidade
diminuía Cada vez ficava mais forte a vontade de fazer só o que o corpo quer, ou seja, só o que é
gostoso e sem planejamento. Não conseguia mais pensar com clareza. Então comeu
tudo que tinha de gostoso na geladeira e foi para a rua. Ficou brincando sozinho
até que os amigos aparecessem para ficarem juntos. Aí não deu mais certo. Como
só fazia o que o corpo mandava, ou melhor, como só fazia o que os animaizinhos
faziam, logo brigou feio com todos os amiguinhos. Afinal, cada vez pensava
menos no que poderia acontecer no minuto seguinte, e cada vez ficava mais bravo.
Não estava ficando burro. Estava cada vez mais irresponsável!
Só voltou para casa
quando a fome bateu na barriga. A mãe xingou, o pai também. Mas logo esqueceu a
bronca recebida e já queria brincar novamente. Não podia perceber que a
bruxinha ria o tempo todo ao ver o guri todo sujo, mal cheiroso e cheio de
doces na boca.
Quando a noite chegou
Marquinhos estava exausto. Só queria dormir. Quase não pensava mais. Já não
conseguia falar sobre o futuro e o passado já havia esquecido. Por alguns
minutos esquecia quem era, pois o desejo de comer, brincar e dormir era mais forte
do que pensar em si mesmo. Os desejos não davam sossego e ele ia de uma vontade
a outra, ia satisfazendo a todo minuto o que podia satisfazer. O que não podia
conseguir, esquecia segundos depois.
A bruxinha ficou com
pena porque se ele ficasse mais tempo assim, ficaria um bichinho para sempre.
Para sempre ficaria escravo dos desejos e ia esquecer de si mesmo. Também já estava perdendo a graça ver o guri
assim, tão feio, tão perdido e tão... animalzinho. Então pegou um vidrinho do
seu bolso e lá estava a alma, a responsabilidade do Marquinhos. A alma era
transparente e supercuidadosa. A alma suplicou com o olhar para que a bruxinha
a deixasse voltar ao corpo. Ela estava com medo que fosse rejeitada pelo corpo
do Marquinhos. O corpo estava forte e cada vez mais mandava na mente do guri.
A Bruxinha abriu o vidrinho,
a alma pulou e como um raio, plof, atingiu a cabeça do Marquinhos. O guri
tremeu todo e voltou a si. A bruxinha riu alto e foi embora. Com a humanidade
restabelecida, a ficha caiu! Marquinhos entendeu a lição que ficou daquela traquinagem da
bruxinha!
E tu? Entendeste?