sábado, 23 de dezembro de 2017

Golpe! Golpe!






Golpe! Golpe! Gritou o lenhador!

Vai cair ao chão o tronco muito forte!

Golpe! Golpe! Sem nenhuma dor

condenou sem pena a vida à morte!

Golpe! Gritava forte golpeando...

A vida ia cedendo a cada possante corte...

Aos poucos se move, oscilando...

O estrondo ensurdecedor

confirma: que a vida não volte!

Feliz! Feliz o ignorante lenhador...

Ouçam o grito! É golpe! É golpe!

Venci! Venci! Diz bramindo o machado!

No chão caída a esperança da floresta!

Choram as flores deixando tudo orvalhado...

Revolta! Revolta é só que resta...

Não se cala o ignorante lenhador!!!!

Derruba ao chão o tronco tão forte...

Golpe! Golpe! Sem nenhuma dor

condenou sem pena a vida à morte!


Política e bichos...

















A política a grasnar.
Triste turba a cacarejar.

Quadrúpedes de patas duras!
Relincham as cavalgaduras!

Entre outros a bodejar,
perambula o parlamentar.

Récua mui gananciosa,
vara barulhenta de si zelosa...

A política urra.
No mais, zurra.

Bando de incrível astúcia...
No mais, zurra a súcia!


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Chuva poetisa...







A chuva etérea, aquosa e poetisa
escreve seus poemas no para-brisa...
As gotas escrevem suas letras
que escorrem pelas sarjetas...
A chuva escreve aos ventos,
por tudo escreve seus lamentos!
Nos versos escorridos
poema em todos os vidros!
Escreve por onde seu verso deságua...
Por papel o mundo, por tinta a água!
Chuva versejante! Chuva de lamentos!
Loucos versos d'água nas mãos dos ventos!






terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Tu: esquiva!



Tão presente e tão esquiva.
Tão infrequente e tão viva!
Tênue como prece...
Surge... e desaparece...

Esvanece... arredia...
Linda de dia.
Na noite... te sonho.
É pra ti que componho...

Como flor que perfuma..
Como frágil bruma...
Foges... te irisa!
Tênue como brisa!

Tão presente e tão esquiva.
Tênue como prece.
Tão infrequente e tão viva!
Ora surge. Ora desaparece.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Ode a Castro Alves ( Idranreb)

Quem eram? Donde vinham? – pouco importa
Quem fossem da casinha os habitantes.
 – São noivos: – as mulheres murmuravam!
 – E os pássaros diziam: – são amantes!
C. Alves



Eu:
Sonhava tanto aos dezesseis anos
ser Castro Alves: juvenis planos!

Como ele:
Em navios negreiros navegava
e a linda Eugênia Câmara amava...

Como o poeta:

Bebia as negras tintas envenenadas
dos tinteiros das almas penadas!

Como ele:

Escrevia poemas condoreiros
entre senzalas e nevoeiros..

Como o poeta:

Queria morrer a morte cristalina
sonhando Leonídia ou Idalina...

Como ele:

Escrevi muitos versos em chamas
feito de sonhos e de jovens damas...

Mas não sou o poeta:

Hoje dedilhando frios computadores
nem mais sonhos,  nem mais amores..

Não sou ele!

Internet, You tube e celulares
negam minhas dores e pesares...

Não sou o poeta:

O face não é nem antiga tinta e nem velhas penas...
Ah! Tecnologias! A ser eu mesmo tu me condenas!!!!!!!




O louco...

















Tu no louco acreditavas...
O louco que nem fé tinha...
Tu admiravas o louco
Que nada tinha para admirar-se...
Tu amavas o louco
Que nada de amor tinha...
Tu vivias a vida do louco
Que meio morto vivia...
Tu te entregavas ao louco
Que nada tinha para te dar...
Tu rezavas tanto por ele
Que nada de preces tinha...
Tu cuidavas tanto dele
Tão descuidado ele era...
Amavas o louco tão doido
Que nada de amor ele tinha...
Entendo hoje: a louca eras tu!

domingo, 17 de dezembro de 2017

Negro vórtice: tempestade!






Do céu plúmbeos rios...

Infernos sombrios!

Do céu negras águas nos atingem...

Negro vórtice: vertigem!

Dos céus ventos cinzas...

Negror: tu em tudo respingas!

Chove a chuva, a chuva chove...

Negror do céu escorre

de chumbo tudo inundando!

Cérberos entre nuvens vagando:

gritos feitos de trovões!

Do inferno os caldeirões

em nós são despejados!

Por gotas d’água apedrejados

fogem todos da fatal tempestade!

Dos relâmpagos a majestade

rasgam os céus sombrios...

São cascatas, são negros rios!

Do céu negras águas nos atingem...

Negro vórtice: vertigem!








sábado, 16 de dezembro de 2017

A liberdade do cativo...




















O jovem: Quero a liberdade em cem por cento...
Livre, solto, leve, totalmente ao vento!

Diz o sábio muito feio e muito vidente....
Liberdade pura é excludente!!!!
Livre é quem não pode ter amores, sem laços!
Livre é quem não se prende em doces abraços!!!
Livre, mais que livre, livre como o falcão?
Livre, livre, tão livre que morre de solidão!

O jovem: Livre em cem por cento, livre em absoluto...
Faço guerras, faço tudo, pela liberdade luto!

Moço, tão preso moço. Moço tão cativo!
Não queiras o voo, não querias voo tão altivo...
Aos livres totalmente à solidão do calabouço...
Preso serás – insano - ; preso serás doce louco!
Serás tão só quanto serás mais um tolo cativo...
Não queiras o voo, não querias voo tão altivo...


Escola jardim Jardim escola












A escola é como florido jardim...
Flores, amores e crianças sem fim!
A escola é como gentil sementeira...
Cada saber é húmus para a vida inteira!
Aprender é como roda gigante sem fim...
Aprender é como sol em mágico jardim!
Cada criança é flor muito perfumada...
A escola é como sementeira ensolarada!
No jardim-escola crianças florescem o ano inteiro...
Na escola-jardim o livro é o encantado jardineiro!
No jardim - escola todo mundo é herói...
No jardim das crianças errar nunca dói!
Nesse jardim de alunos, não vale a nota...
Nesse jardim tão bonito é a vida que brota!

domingo, 3 de dezembro de 2017

Delicadeza...




Estou delicado demais...

Lágrimas como jamais...

Sensível demais, em demasia

Choro por qualquer fantasia...

Terno, amorável e tenso,

Choro, não aguento!

Como cristal, quase quebro...

Chorar mais não quero!

Delicado de jeito tão profundo...

Sofro por esse triste mundo

Perdido solto, pobre orbe!

Dos sonhos não me acorde,

Sou muito delicado, terno demais...

Deixe-me aqui nas fossas abissais

da minha exacerbada sensibilidade!




sábado, 2 de dezembro de 2017

Noite de Serenata...




NA NOITE,  A SERENATA,

SOB A BELA LUA-PRATA,

ESCOA ENSANDECIDA...

ELA – DE TUDO ESQUECIDA –

SUSPIRAVA TÃO SÓ NA SACADA!

CUMPLICE: A NOITE ENLUARADA!

CENÁRIO: A PAISAGEM BRASILEIRA!

A ESCURIDÃO – NEGRA FEITICIERA –

OS MEIGOS AMANTES ENFEITIÇAVA!

A MÚSICA DELE - QUE A ENCANTAVA –

(DEUS, POR QUE? )  PARA DE REPENTE!

É QUE A PORTA – LENTAMENTE –

ABRE-SE COMO TERNO CONVITE...

E O SERESTEIRO NÃO RESISTE

ELE ENTRA...  APAIXONADO!

NO QUARTO ENLUARADO

O DOCE CASAL SE ABRAÇA!

PERFUME SUTIL TUDO ABARCA

- É PRESENTE DAS MADRUGADAS...

AS DUAS ALMAS – APAIXONADAS –

SE ENTREGAM TOTALMENTE!

O AMANTE DOCE – GENTILMENTE –

ACARICIA DELA OS LONGOS CABELOS,

ENLOUQUECIDO DÁ-SE EM DESVELOS

ATÉ A TRISTE HORA DE IR EMBORA...

SORRI PARA A LINDA AURORA

QUE SURGE BRILHATEMENTE...

ENTÃO ELE – GALANTEMENTE –

CANTA NOVA MELODIA!

É PARA A AMANTE ESGUIA

QUE NAS NOITES O ESPERA!

ELA - NAS NOITES DELE IMPERA...

ELA - NO DIA O FAZ TAMBÉM CANTAR...

DOCE É A ESPERA POR OUTRA NOITE DE LUAR!








Tempo de temer!

Medo, estou a tremer...
É tempo da má sorte temer!

Temer! Temer! Tempestade!
Temer! Temer a maldade!

Judas tenebroso de terno e gravata,
é para temer tua mão fria na chibata!

Sujeira no canto esquerdo e no direito...
Tanto faz, já não importa: é sem direito!

Tempo estranho, de estremecer!
Tempo de dor, de susto, de temer!

Vem o medo, vem assalto e tiro!
Estou a temer a noite, o vampiro!

Medo, estou a tremer...
É tempo da má sorte temer!

Temer! Temer! Tempestade!
Temer! Temer a maldade!









sábado, 11 de novembro de 2017

Denúncia...




 Livros fechados
Planta de plástico em pé
Na xícara frio o café

Pinga luz pela vidraça
Solidão pelos cantos
A pouca luz tudo embaça

Desamor esvoaçando
O silêncio faz companhia
Pra quem já não faz poesia...

Corpo parado, vazio...
Olhar imobilizado
Já não escreve o teclado

Percebam!!!!

Despoetaram o poeta
Despoetaram  o mundo
Morre o vate em silêncio profundo!




quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O mal vem da escuridão!


Aos corajosos... 



























Dize tu o que queres, bem o dizes!

Mas ah! - estarás entre os infelizes!

Dize o que quiseres... mas eu sou o forte!

Enquanto vives, ameaço-te com má sorte...

Eu que sou o forte, eu que te dou o norte!

Vá! Conta aos outros o que tanto te assombra!

Mas eu que sou o forte, aguardo-te na sombra...

Dize, esbraveja! Escreve o que queres escrever...

Mas eu sou o forte, não te deixo bem viver!

Fala! Pode falar o quiseres à toda multidão!

Eu que sou forte, aguardo-te frio na escurião...

Vá às ruas, grita tu o que queres gritar...

Mas eu sou o forte e fico a te aguardar...

Pode poetar o que queres, basta teu querer!

Mas eu sou o forte, não te posso deixar viver!

Encanta quem quiseres! Conta a quem quiseres contar!

Mas não te esqueces: eu sou o forte e fico a te aguardar!




quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Dia de chuva...



Cinza, cinza e mais cinza!
Do céu essa cor pinga,
escorre na janela...
Mas não a vê a moça bela
que dorme ainda...
Dorme a moça linda
aquecida pelo lençol...
O cinza esconde o sol!
Cinza! Chuva enorme!
A bela não vê: dorme!
Sonha a bela ainda,
dorme a moça linda
sem saber do dia cinza!


domingo, 1 de outubro de 2017

Apelo a eles...









Uma melancólica moça suspira

Por uma joia nova... Ao lado o boia fria

Sofre pelo seu filhinho doente!

Junta as duas cenas o destino demente:

Então a mocinha se aproxima...

Oh! Linda moça, aqui não entre!”

“Teus sapatos se sujam na favela,

aqui dentro a miséria se desvela

e sinto que tens nojo!”

“Menina, aqui está o lodo

que o rico fomenta...”

“Essa nossa vida é tão nojenta

porque teu pai nos mata por dinheiro!”

“Sinta, delicada moça, esse cheiro

tão diferente do teu perfume...”

Aqui não tem água, nem luz. No negrume

da noite, enquanto dormes e sonhas

já estamos na rua. Com medonhas

olheiras da noite insone –

trabalha, sofre, se consome

na fábrica do teu pai!”

“Choras? Vai embora, vai

para teu palacete.”

Que venha a polícia, o cassetete

calará quem assim te insulta!”

“Tu és feliz moça, exulta!”

“Tu sofres com namoros, cabeleireiro...

“Por Deus! Nós não temos nem comida no fogareiro

nem mais vontade de viver!”



 

domingo, 24 de setembro de 2017

A lição da bruxinha.




Quando Marquinhos acordou estava se sentindo diferente. Não dava para dizer exatamente o que estava acontecendo. Estava um pouco mais pesado. A fome parecia ser mais fome que o normal. A sede também.  A vontade de brincar estava multiplicada por dez. A desvontade de estudar estava a mil! O desejo de comer doces e tudo que era gostoso maltratavam sua barriga! Queria muito, muitíssimo brincar o tempo todo! Queria saltar da cama logo, não escovar os dentes ou pentear-se. Desejava apenas correr, dar cambalhotas. Mas o pior não era essas vontades. O pior mesmo é que, naquela manhã, não conseguia se controlar! Uma força muito estranha, de lá de dentro do seu corpo, o fez desobedecer a mãe e correr logo para a rua brincar. Lembrou que tinha prova na segunda feira, mas não conseguia impedir a si mesmo de saltar, dar cambalhotas, gritar, rir com os amigos pela vizinhança!

Sabia o Marquinhos, que alguma coisa não ia bem nele. Afinal, sempre foi malcriado e mimado, mas nunca ficou sem cumprir regras por tanto tempo. Na verdade não estava cumprindo nenhuma regra! Não conseguia se conter!  Estava feliz, irresponsavelmente feliz, mas percebia que não ia dar certo tal procedimento.  Porém, como se conter? Estava fazendo tudo o que queria e que era prazeroso, imediatamente prazeroso.

No fim da manhã já não conseguia pensar direito. Não conseguia pensar além de minutos a frente. Difícil explicar... não conseguia mais perceber com clareza o futuro, o que ia acontecer às duas da tarde, por exemplo.  Estava preso no desejo presente! Não dava para pensar na prova de amanhã. Só existia o prazer de brincar agora.  Isso era muito estranho até para ele que não gostava de estudar nem de tomar banho! Estava até sentindo medo da força estranha que vinha de dentro dele. Sentia-se um pouco bicho. Queria só fazer coisas gostosas que não precisava pensar. Estaria emburrecendo? Seria alguma doença?

No final do dia estava de barriga cheia. Doía. O corpo estava todo arranhado e roxo das travessuras. Brigou com vários amigos, a tapa! Havia perdido a paciência com todo mundo. O dia inteiro fez só o que queria e pronto. Fechou a porta do quarto muito nervoso e cansado. Não estudou, não tomou banho, não cumprimentou ninguém e estava esquecendo o que significava o dia seguinte. Só pensava no hoje. Só queria dormir agora. Ainda bem que era sábado.

Acordou de madrugada. Muito cedo. Novamente uma energia absurda o fazia agitar-se, querer pular e correr. Era saúde em demasia. Estava muito confuso e já queria comer algo. Também queria passear, tomar água, lamber um sorvete, andar de bicicleta, brincar de pega-pega com os amigos... Mas era apenas cinco horas da manhã. Não deu importância para a hora e desceu até a cozinha para abrir a geladeira. Então ouviu um risinho abafado.

Assustado olhou. Havia uma bruxinha muito bonitinha sorridente no escurinho da cozinha. Após o susto ele perguntou o que estava acontecendo.
- Não percebeste nada, Marquinhos?
- Sim! Estou diferente, pareço mais forte e só faço o que quero, o que eu gosto.
- Estás gostando? _ Ela ria ainda mais.
- Sim... Não... Não sei. Tem algo estranho!
- Eu tirei a tua alma e deixei só o corpo...
- Como isso? Mentira!
- É verdade. Tu querias fazer só o que gostavas. Então tirei de ti o que tu tinhas de humano... a reflexão, o pensar sobre o que fazer, pensar sobre o futuro... enfim, és apenas corpo agora. Como um cachorrinho.

Antes que Marquinhos se refizesse do susto, a bruxinha sumiu. E agora? O que ele iria fazer? Quais seriam as consequências de não ter alma? De ficar só com o corpo, que é animal como qualquer outro?

A responsabilidade diminuía Cada vez ficava mais forte a vontade de fazer só o que o corpo quer, ou seja, só o que é gostoso e sem planejamento. Não conseguia mais pensar com clareza. Então comeu tudo que tinha de gostoso na geladeira e foi para a rua. Ficou brincando sozinho até que os amigos aparecessem para ficarem juntos. Aí não deu mais certo. Como só fazia o que o corpo mandava, ou melhor, como só fazia o que os animaizinhos faziam, logo brigou feio com todos os amiguinhos. Afinal, cada vez pensava menos no que poderia acontecer no minuto seguinte, e cada vez ficava mais bravo. Não estava ficando burro. Estava cada vez mais irresponsável!

Só voltou para casa quando a fome bateu na barriga. A mãe xingou, o pai também. Mas logo esqueceu a bronca recebida e já queria brincar novamente. Não podia perceber que a bruxinha ria o tempo todo ao ver o guri todo sujo, mal cheiroso e cheio de doces na boca.

Quando a noite chegou Marquinhos estava exausto. Só queria dormir. Quase não pensava mais. Já não conseguia falar sobre o futuro e o passado já havia esquecido. Por alguns minutos esquecia quem era, pois o desejo de comer, brincar e dormir era mais forte do que pensar em si mesmo. Os desejos não davam sossego e ele ia de uma vontade a outra, ia satisfazendo a todo minuto o que podia satisfazer. O que não podia conseguir, esquecia segundos depois.

A bruxinha ficou com pena porque se ele ficasse mais tempo assim, ficaria um bichinho para sempre. Para sempre ficaria escravo dos desejos e ia esquecer de si mesmo.  Também já estava perdendo a graça ver o guri assim, tão feio, tão perdido e tão... animalzinho. Então pegou um vidrinho do seu bolso e lá estava a alma, a responsabilidade do Marquinhos. A alma era transparente e supercuidadosa. A alma suplicou com o olhar para que a bruxinha a deixasse voltar ao corpo. Ela estava com medo que fosse rejeitada pelo corpo do Marquinhos. O corpo estava forte e cada vez mais mandava na mente do guri.

              A Bruxinha abriu o vidrinho, a alma pulou e como um raio, plof, atingiu a cabeça do Marquinhos. O guri tremeu todo e voltou a si. A bruxinha riu alto e foi embora. Com a humanidade restabelecida, a ficha caiu! Marquinhos entendeu a lição que ficou daquela traquinagem da bruxinha!

E tu? Entendeste?

sábado, 23 de setembro de 2017

Últimas páginas (Do livro "Últimas páginas"




Ele tinha como hábito escrever pequenos poemas nas últimas páginas dos cadernos escolares Era uma mania antiga. Na quinta série quando se apaixonara pela guria da sexta, era como se o caderno começasse no final, da última para a primeira página. Escrevia como um condenado poeminhas, versinhos inocentes que manchavam páginas e páginas dos cadernos escolares.  A colega da sala ao lado nunca soube da existência de tais delírios escritos de trás para frente. A guria alta, de óculos grossos e magra, muito magra, talvez nem soubesse que o baixinho, loirinho, igualmente de óculos grossos e tímido tinha tamanha paixão por ela.
Quando adolescente, as páginas finais continuaram sendo uma espécie de diário romântico/sonhador do moço. Continuava baixinho e loiro. Mas os óculos já eram delicados e escolhidos com cuidado.  Quando pegava os cadernos e livros os pais dele exultavam: que guri estudioso! Não sabiam que os livros eram de poesia, os cadernos estavam sendo escritos de trás para frente... eram poemas! A mochila era o cofre em que escondia tais tesouros literários que ninguém lia. Ninguém sabia. Ninguém percebia o poeta feinho, sem graça, sem jeito, sem namorada, sem nada.
Anos mais tarde apaixonou-se pela sua professora. As paginais finais eram então utilizadas com loucura e paixão! Na aula as páginas primeiras eram conteúdo puro. Mas as páginas finais! Eram uma loucura só. Rabiscos e poemas faziam delas um mundo extraordinário que, com certeza, só faziam sentido para seu autor.  Também havia, junto com as poesias ingênuas, listas de palavras bonitas, sonoras, que o escritor juvenil acolhia nas últimas páginas para usá-las nos seus momentos de criação. A professora, a musa das páginas malditas, só tinha acesso ao início do caderno. Então não podia penetrar na alma do poeta, percebia o conhecimento do aluno... e só. E como o conhecimento de química era pouco naquela cabecinha louca de páginas finais, a nota era uma porcaria só. É fato: paginais iniciais nada falam das finais!
Alguma coisa ruim aconteceu com o juvenil poeta.  Um dia qualquer de uma época qualquer as páginas iniciais tornam-se as principais e as finais passam a rarear. As notas sobem e os escritos diminuem. Os corredores da escola começam a murmurar quão bom aluno tornara-se ele! Mas, escutem somente os que sabem escutar: não sabiam das páginas finais! Elas estavam definhando, anêmicas de algo! O problema é que o mundo quer ler apenas os cadernos que possuam bonitas páginas iniciais.
Os últimos escritos dele, pois parou de escrever – de trás para frente no caderno – foram estes:

Obnubilar-se...

Chamei-te aqui,
Aqui não vieste...
Gritei em prece,
Surda estavas...
Chamei tuas asas,
Quis tuas garras...
E tu, que não me amparas
Deixaste-me a padecer!
Ouvi-me! Não quero viver...
Eu sofro, amada morte,
Eu quero a paz da tua sorte!
Se nada existe além de ti,
Serei feliz porque sofro aqui...
Mas se algo existe no teu mundo,
Será melhor que esse sofrer profundo...
Morte tão santa, divina!,
Luz! Minh’alma definha...
É morta-viva, vive morta!
Morte, abre tua porta,
Ceifa esse galho morto...
Vem, navega-me para teu negro porto!

Era um poeta morrendo de dor. O diário do caderno dizia que o autor dos versos nunca lidos estava moribundo. Pois é, quantos poetas morrem antes de serem desvendados, antes de desabrocharem? Impossível quantificar tais assassinatos de almas escreventes de páginas finais. Crimes insolúveis!
Os cadernos dele começaram a serem usados de forma correta. O estudante passou a ter ótimas notas. Livros de poesia? Só os que eram necessários para o vestibular. Sonhos? Só aqueles que estivem ligados a uma profissão. E veio o vestibular. Passou de primeira! E veio a formatura! Tirou de letra. Surgiu o primeiro emprego. Sucesso!
E veio a felicidade? Não! Ele era apenas um guri que adulteceu muito rápido. Era um baixinho muito esquisito e simpático. Esquisito porque pensava diferente de todos. Simpático porque estava sempre sorrindo. Mas quem sabia ler aqueles olhos?Ninguém talvez. Lá dentro a tristeza estava.  Lá dentro estava a angústia de quem havia reprovado nas questões relativas as páginas finais dos cadernos escolares. Alguma coisa falta nos conteúdos das páginas últimas dos últimos cadernos.
Um dia aconteceu. Aconteceu o inesperado. Ele, agora professor conhecido, palestrante muito convidado, caiu. Caiu mesmo: Plof! Estabacou-se nas escadas da Universidade. Lindo de ver! Livros espalhados, folhas voando, um bando de alunos correndo para ajudá-lo. Então o fenômeno Priscila aconteceu.
Ele caído ao solo. Ela, assustada, coloca a cabeça dele em seu colo. Outros gritam para chamarem a ambulância. O caso era grave. A cabeça dele estava sangrando. Bateu na escada que ele descia correndo.
Priscila olhava no olho do professor caído. O olho azul dele estava menos azul, mas estava fixado nos olhos dela.  A mão dele estava fria, mas segurava firme.  Questão de minutos e a ambulância chegou. Corre-corre. Alunos se afastam. Vem a maca. Eis que desaparece o incidente. Tudo passa a ser normal. O silêncio retoma os corredores.
Priscila esqueceu do ocorrido. Quero dizer, até lembrava, mas já não era relevante para ela a queda de um professor.
Após a queda ele acordou-se no pronto socorro do hospital. Tudo estava bem. Um corte, um hematoma gigante e uma dor de cabeça. Só. Algumas horas de observação médica e pôde ir embora. Mas ele sentia-se diferente. Não podia esquecer o verde olhar da Priscila. Luzes verdes brilhavam naquele olhar. Neles havia profundidades que chamavam para seu interior. Ele não pôde escapar ao chamado e entrega-se. Sabia que foram poucos minutos de contato... mas o que é o tempo? Quem pode medi-lo se ele é um paradoxo? Se ele é diferente para as diferentes pessoas? Ele foi abduzido por aqueles olhos.
Dias depois aula normal. Ele entra. Sorri para Priscila e mostra a última página de um caderno. Ela estranha: por que a última página? Ela lê:

Olho verde...

Vejo tudo verde: o sol,
As constelações...
Tudo! Verde é o arrebol,
Tudo tem verdes fulgurações!

Verde! Verde é a vida,
Verde é o mundo!
Verde é a flor rompida,
Tudo é de um verde profundo...

Eu louco? Louco ao ver-te,
Ver-te assim tão bela,
Ver-te assim de olho verde,
Tudo é verde para combinar com ela!

Ela não entendeu o que significava aquilo. Ele sorriu e disse que ela havia salvado a vida dele. Priscila imaginou que o havia salvado da morte. Mas nós – os leitores desse texto - sabemos que ela salvou a última página do caderno, ou seja, salvou um poeta que estava morrendo aos poucos.







A vez primeira...
















Qual inúmeros vaga-lumes
ou como espalhados perfumes
teus encantos por aí vão...

Qual do relâmpago o clarão
em mágica noite rara:
Ah! Em nada se compara

Teus juvenis encantos!
Teus luzentes cabelos
tão cheios de desvelos

fazem sutis acalantos
na tua face clara...
Que verso se equipara

A essa mulher-poema?
A beleza dela condena
as moças todas a feiúra!

Com demasiada usura
para mim a desejo!
Ela é tremendo lampejo!

Ao vê-la na vez primeira,
inocente poetinha,
tanta luz ela tinha
que provocou-me cegueira!