Cruzo o ar frio da manhã. São seis horas. Ainda é escuro. Minha
caixinha tecnológica me protege de tudo. Meu carro é confortável. Celeremente
ando pelas ruas entre outros veículos. Pessoas passam pelas calçadas. Semáforos
me fazem parar. Faixas de pedestres gritam minha parada também. Faróis, luzes, sons,
placas, uma quantidade enorme de coisas gritando envolta do carro. Porém estou
surdo. Sigo meu caminho indiferente. Encouraçado pelo aço e potência do motor,
blindado pela velocidade, nada sinto. Estou ensimesmado no meu casulo metálico,
é quase um útero. Não quero conversa com o mundo.
Minha solidão e a minha dor estão presas dentro do carro. Assombram só
a mim e não quero compartilhar. Sei que estou só. Aquelas pessoas, aqueles
veículos, aqueles sinais não dizem nada para mim. Não dizem porque não os quero
ouvir. Sinto-me isolado do frio da manhã e isolado do planeta. Meu carro me
conduz. Meu carro me protege. Sou um Hoplita, meu carro é meu escudo. Quero
apenas ir, avançar. Meu veículo é minha única defesa neste momento de profundo
desamparo.
Quantas vidas estão cruzando por mim ali fora? Quantas coisas estão
acontecendo? Tanta gente indo ao trabalho, tanta gente sofrendo, tanta gente
sendo... gente. Nesta manhã, porém, nada
tenho a dizer. Nada tenho a fazer. Tudo é-me indiferente porque minha
fragilidade me faz agora uma figura de vidro, de cristal. Preciso do meu casulo
metálico para sobreviver, como as conchas ou estojos de joias. Estou frágil e
só. Mais frágil me sentirei quando chegar ao meu destino. O frio da manhã e o
inverno vão me atingir. A rotina vai colidir comigo. Conviverei com pessoas que
não me amam. Falarei com pessoas que talvez não queiram falar comigo. Talvez
alguma discussão no trabalho. Quem sabe alguém virá me pedir algum conselho.
Como suportar hoje, hoje que estou tão fragilizado?
O mundo, as pessoas não vão parar porque estou assim. Ninguém quererá
saber por que estou assim. Sei que não seria justo eu querer que alguém se
preocupasse com o que sinto. A dor é minha. Não posso dividi-la. Não seria justo.
Meu carro é, por alguns minutos, a barriga da minha mãe, o conforto que ninguém
pode dar para mim nesse momento. Vou rodar mais um pouco, chegar atrasado ao
trabalho, curtir mais essa dor até cansar de senti-la. Quem sabe eu melhoro
antes de ter que parar.