Ele tinha como hábito
escrever pequenos poemas nas últimas páginas dos cadernos escolares Era uma
mania antiga. Na quinta série quando se apaixonara pela guria da sexta, era
como se o caderno começasse no final, da última para a primeira página.
Escrevia como um condenado poeminhas, versinhos inocentes que manchavam páginas
e páginas dos cadernos escolares. A
colega da sala ao lado nunca soube da existência de tais delírios escritos de
trás para frente. A guria alta, de óculos grossos e magra, muito magra, talvez
nem soubesse que o baixinho, loirinho, igualmente de óculos grossos e tímido
tinha tamanha paixão por ela.
Quando adolescente, as
páginas finais continuaram sendo uma espécie de diário romântico/sonhador do
moço. Continuava baixinho e loiro. Mas os óculos já eram delicados e escolhidos
com cuidado. Quando pegava os cadernos e
livros os pais dele exultavam: que guri estudioso! Não sabiam que os livros
eram de poesia, os cadernos estavam sendo escritos de trás para frente... eram
poemas! A mochila era o cofre em que escondia tais tesouros literários que
ninguém lia. Ninguém sabia. Ninguém percebia o poeta feinho, sem graça, sem
jeito, sem namorada, sem nada.
Anos mais tarde
apaixonou-se pela sua professora. As paginais finais eram então utilizadas com
loucura e paixão! Na aula as páginas primeiras eram conteúdo puro. Mas as
páginas finais! Eram uma loucura só. Rabiscos e poemas faziam delas um mundo
extraordinário que, com certeza, só faziam sentido para seu autor. Também havia, junto com as poesias ingênuas,
listas de palavras bonitas, sonoras, que o escritor juvenil acolhia nas últimas
páginas para usá-las nos seus momentos de criação. A professora, a musa das
páginas malditas, só tinha acesso ao início do caderno. Então não podia penetrar
na alma do poeta, percebia o conhecimento do aluno... e só. E como o
conhecimento de química era pouco naquela cabecinha louca de páginas finais, a
nota era uma porcaria só. É fato: paginais iniciais nada falam das finais!
Alguma coisa ruim aconteceu
com o juvenil poeta. Um dia qualquer de
uma época qualquer as páginas iniciais tornam-se as principais e as finais
passam a rarear. As notas sobem e os escritos diminuem. Os corredores da escola
começam a murmurar quão bom aluno tornara-se ele! Mas, escutem somente os que
sabem escutar: não sabiam das páginas finais! Elas estavam definhando, anêmicas
de algo! O problema é que o mundo quer ler apenas os cadernos que possuam
bonitas páginas iniciais.
Os últimos escritos dele,
pois parou de escrever – de trás para frente no caderno – foram estes:
Obnubilar-se...
Chamei-te aqui,
Aqui não vieste...
Gritei em prece,
Surda estavas...
Chamei tuas asas,
Quis tuas garras...
E tu, que não me amparas
Deixaste-me a padecer!
Ouvi-me! Não quero
viver...
Eu sofro, amada morte,
Eu quero a paz da tua
sorte!
Se nada existe além de
ti,
Serei feliz porque sofro
aqui...
Mas se algo existe no teu
mundo,
Será melhor que esse
sofrer profundo...
Morte tão santa, divina!,
Luz! Minh’alma definha...
É morta-viva, vive morta!
Morte, abre tua porta,
Ceifa esse galho morto...
Vem, navega-me para teu
negro porto!
Era um poeta morrendo de
dor. O diário do caderno dizia que o autor dos versos nunca lidos estava
moribundo. Pois é, quantos poetas morrem antes de serem desvendados, antes de
desabrocharem? Impossível quantificar tais assassinatos de almas escreventes de
páginas finais. Crimes insolúveis!
Os cadernos dele
começaram a serem usados de forma correta. O estudante passou a ter ótimas
notas. Livros de poesia? Só os que eram necessários para o vestibular. Sonhos?
Só aqueles que estivem ligados a uma profissão. E veio o vestibular. Passou de
primeira! E veio a formatura! Tirou de letra. Surgiu o primeiro emprego.
Sucesso!
E veio a felicidade? Não!
Ele era apenas um guri que adulteceu muito rápido. Era um baixinho muito
esquisito e simpático. Esquisito porque pensava diferente de todos. Simpático
porque estava sempre sorrindo. Mas quem sabia ler aqueles olhos?Ninguém talvez.
Lá dentro a tristeza estava. Lá dentro
estava a angústia de quem havia reprovado nas questões relativas as páginas
finais dos cadernos escolares. Alguma coisa falta nos conteúdos das páginas
últimas dos últimos cadernos.
Um dia aconteceu.
Aconteceu o inesperado. Ele, agora professor conhecido, palestrante muito convidado,
caiu. Caiu mesmo: Plof! Estabacou-se nas escadas da Universidade. Lindo de ver!
Livros espalhados, folhas voando, um bando de alunos correndo para ajudá-lo.
Então o fenômeno Priscila aconteceu.
Ele caído ao solo. Ela,
assustada, coloca a cabeça dele em seu colo. Outros gritam para chamarem a
ambulância. O caso era grave. A cabeça dele estava sangrando. Bateu na escada
que ele descia correndo.
Priscila olhava no olho
do professor caído. O olho azul dele estava menos azul, mas estava fixado nos
olhos dela. A mão dele estava fria, mas
segurava firme. Questão de minutos e a
ambulância chegou. Corre-corre. Alunos se afastam. Vem a maca. Eis que
desaparece o incidente. Tudo passa a ser normal. O silêncio retoma os
corredores.
Priscila esqueceu do
ocorrido. Quero dizer, até lembrava, mas já não era relevante para ela a queda
de um professor.
Após a queda ele
acordou-se no pronto socorro do hospital. Tudo estava bem. Um corte, um
hematoma gigante e uma dor de cabeça. Só. Algumas horas de observação médica e
pôde ir embora. Mas ele sentia-se diferente. Não podia esquecer o verde olhar
da Priscila. Luzes verdes brilhavam naquele olhar. Neles havia profundidades
que chamavam para seu interior. Ele não pôde escapar ao chamado e entrega-se.
Sabia que foram poucos minutos de contato... mas o que é o tempo? Quem pode
medi-lo se ele é um paradoxo? Se ele é diferente para as diferentes pessoas?
Ele foi abduzido por aqueles olhos.
Dias depois aula normal.
Ele entra. Sorri para Priscila e mostra a última página de um caderno. Ela
estranha: por que a última página? Ela lê:
Olho verde...
Vejo tudo verde: o sol,
As constelações...
Tudo! Verde é o arrebol,
Tudo tem verdes
fulgurações!
Verde! Verde é a vida,
Verde é o mundo!
Verde é a flor rompida,
Tudo é de um verde profundo...
Eu louco? Louco ao
ver-te,
Ver-te assim tão bela,
Ver-te assim de olho
verde,
Tudo é verde para
combinar com ela!
Ela não entendeu o que
significava aquilo. Ele sorriu e disse que ela havia salvado a vida dele.
Priscila imaginou que o havia salvado da morte. Mas nós – os leitores desse
texto - sabemos que ela salvou a última página do caderno, ou seja, salvou um
poeta que estava morrendo aos poucos.

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