sábado, 23 de setembro de 2017

Últimas páginas (Do livro "Últimas páginas"




Ele tinha como hábito escrever pequenos poemas nas últimas páginas dos cadernos escolares Era uma mania antiga. Na quinta série quando se apaixonara pela guria da sexta, era como se o caderno começasse no final, da última para a primeira página. Escrevia como um condenado poeminhas, versinhos inocentes que manchavam páginas e páginas dos cadernos escolares.  A colega da sala ao lado nunca soube da existência de tais delírios escritos de trás para frente. A guria alta, de óculos grossos e magra, muito magra, talvez nem soubesse que o baixinho, loirinho, igualmente de óculos grossos e tímido tinha tamanha paixão por ela.
Quando adolescente, as páginas finais continuaram sendo uma espécie de diário romântico/sonhador do moço. Continuava baixinho e loiro. Mas os óculos já eram delicados e escolhidos com cuidado.  Quando pegava os cadernos e livros os pais dele exultavam: que guri estudioso! Não sabiam que os livros eram de poesia, os cadernos estavam sendo escritos de trás para frente... eram poemas! A mochila era o cofre em que escondia tais tesouros literários que ninguém lia. Ninguém sabia. Ninguém percebia o poeta feinho, sem graça, sem jeito, sem namorada, sem nada.
Anos mais tarde apaixonou-se pela sua professora. As paginais finais eram então utilizadas com loucura e paixão! Na aula as páginas primeiras eram conteúdo puro. Mas as páginas finais! Eram uma loucura só. Rabiscos e poemas faziam delas um mundo extraordinário que, com certeza, só faziam sentido para seu autor.  Também havia, junto com as poesias ingênuas, listas de palavras bonitas, sonoras, que o escritor juvenil acolhia nas últimas páginas para usá-las nos seus momentos de criação. A professora, a musa das páginas malditas, só tinha acesso ao início do caderno. Então não podia penetrar na alma do poeta, percebia o conhecimento do aluno... e só. E como o conhecimento de química era pouco naquela cabecinha louca de páginas finais, a nota era uma porcaria só. É fato: paginais iniciais nada falam das finais!
Alguma coisa ruim aconteceu com o juvenil poeta.  Um dia qualquer de uma época qualquer as páginas iniciais tornam-se as principais e as finais passam a rarear. As notas sobem e os escritos diminuem. Os corredores da escola começam a murmurar quão bom aluno tornara-se ele! Mas, escutem somente os que sabem escutar: não sabiam das páginas finais! Elas estavam definhando, anêmicas de algo! O problema é que o mundo quer ler apenas os cadernos que possuam bonitas páginas iniciais.
Os últimos escritos dele, pois parou de escrever – de trás para frente no caderno – foram estes:

Obnubilar-se...

Chamei-te aqui,
Aqui não vieste...
Gritei em prece,
Surda estavas...
Chamei tuas asas,
Quis tuas garras...
E tu, que não me amparas
Deixaste-me a padecer!
Ouvi-me! Não quero viver...
Eu sofro, amada morte,
Eu quero a paz da tua sorte!
Se nada existe além de ti,
Serei feliz porque sofro aqui...
Mas se algo existe no teu mundo,
Será melhor que esse sofrer profundo...
Morte tão santa, divina!,
Luz! Minh’alma definha...
É morta-viva, vive morta!
Morte, abre tua porta,
Ceifa esse galho morto...
Vem, navega-me para teu negro porto!

Era um poeta morrendo de dor. O diário do caderno dizia que o autor dos versos nunca lidos estava moribundo. Pois é, quantos poetas morrem antes de serem desvendados, antes de desabrocharem? Impossível quantificar tais assassinatos de almas escreventes de páginas finais. Crimes insolúveis!
Os cadernos dele começaram a serem usados de forma correta. O estudante passou a ter ótimas notas. Livros de poesia? Só os que eram necessários para o vestibular. Sonhos? Só aqueles que estivem ligados a uma profissão. E veio o vestibular. Passou de primeira! E veio a formatura! Tirou de letra. Surgiu o primeiro emprego. Sucesso!
E veio a felicidade? Não! Ele era apenas um guri que adulteceu muito rápido. Era um baixinho muito esquisito e simpático. Esquisito porque pensava diferente de todos. Simpático porque estava sempre sorrindo. Mas quem sabia ler aqueles olhos?Ninguém talvez. Lá dentro a tristeza estava.  Lá dentro estava a angústia de quem havia reprovado nas questões relativas as páginas finais dos cadernos escolares. Alguma coisa falta nos conteúdos das páginas últimas dos últimos cadernos.
Um dia aconteceu. Aconteceu o inesperado. Ele, agora professor conhecido, palestrante muito convidado, caiu. Caiu mesmo: Plof! Estabacou-se nas escadas da Universidade. Lindo de ver! Livros espalhados, folhas voando, um bando de alunos correndo para ajudá-lo. Então o fenômeno Priscila aconteceu.
Ele caído ao solo. Ela, assustada, coloca a cabeça dele em seu colo. Outros gritam para chamarem a ambulância. O caso era grave. A cabeça dele estava sangrando. Bateu na escada que ele descia correndo.
Priscila olhava no olho do professor caído. O olho azul dele estava menos azul, mas estava fixado nos olhos dela.  A mão dele estava fria, mas segurava firme.  Questão de minutos e a ambulância chegou. Corre-corre. Alunos se afastam. Vem a maca. Eis que desaparece o incidente. Tudo passa a ser normal. O silêncio retoma os corredores.
Priscila esqueceu do ocorrido. Quero dizer, até lembrava, mas já não era relevante para ela a queda de um professor.
Após a queda ele acordou-se no pronto socorro do hospital. Tudo estava bem. Um corte, um hematoma gigante e uma dor de cabeça. Só. Algumas horas de observação médica e pôde ir embora. Mas ele sentia-se diferente. Não podia esquecer o verde olhar da Priscila. Luzes verdes brilhavam naquele olhar. Neles havia profundidades que chamavam para seu interior. Ele não pôde escapar ao chamado e entrega-se. Sabia que foram poucos minutos de contato... mas o que é o tempo? Quem pode medi-lo se ele é um paradoxo? Se ele é diferente para as diferentes pessoas? Ele foi abduzido por aqueles olhos.
Dias depois aula normal. Ele entra. Sorri para Priscila e mostra a última página de um caderno. Ela estranha: por que a última página? Ela lê:

Olho verde...

Vejo tudo verde: o sol,
As constelações...
Tudo! Verde é o arrebol,
Tudo tem verdes fulgurações!

Verde! Verde é a vida,
Verde é o mundo!
Verde é a flor rompida,
Tudo é de um verde profundo...

Eu louco? Louco ao ver-te,
Ver-te assim tão bela,
Ver-te assim de olho verde,
Tudo é verde para combinar com ela!

Ela não entendeu o que significava aquilo. Ele sorriu e disse que ela havia salvado a vida dele. Priscila imaginou que o havia salvado da morte. Mas nós – os leitores desse texto - sabemos que ela salvou a última página do caderno, ou seja, salvou um poeta que estava morrendo aos poucos.







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